(Con)julgando o verbo errar sempre na terceira pessoa 17 de abril de 2012
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Ingratidão com o Zé do caixão 20 de outubro de 2011
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No momento em que o corpo chegava à capela mortuária, Zé Inocêncio já estava entre os familiares e amigos do falecido. Zé morava há alguns anos num pequeno barraco do lado leste da margem do rio que divide sua cidade. Abandonado pelos parentes, Inocêncio tinha duas alegrias na vida: estar na companhia de um cão de rua que lhe seguia há anos; e escutar a rádio AM local que comunicava as notas de falecimento pela manhã. Todos os dias, antes do alvorecer, um som estridente ecoava diretamente nos ouvidos daqueles que caminhavam pelas ruas, e todos sabiam que se tratava do radinho de Zé, propagando as noticias fúnebres em primeira mão. Assim foi sua rotina durante 30 anos. Ao saber qual capela o eventual “presunto” do dia seria velado, partia para o local do evento. Com sandálias de dedo e o inseparável rádio a pilhas debaixo do braço, transitava entre os consanguíneos do extinto, angariando informações.
- Qual o nome do falecido? – questionou Inocêncio para um senhor, num desses velórios que compareceu.
- É Alberto. Ou era. Não sei muito bem como referir-me a um cadáver.
- Morreu do quê?
- Infarto fulminante, logo depois de receber o primeiro pagamento da aposentadoria. Dizem as más línguas que foi decepção com os valores na folha.
Naquela rotina diária de vigília aos defuntos, tornou-se tarimbado em eventos fúnebres, e demonstrava profunda tristeza a cada novo sepultamento, mesmo sem conhecer os finados e seus entes queridos. Dentro da capela, sentava-se num banquinho e acompanhava até o último minuto a cerimônia, enquanto o corpo não fosse sepultado, não arredava o pé. Tudo isso porque não se contentava apenas em ficar olhando. Durante muito tempo, em todos os velórios que compareceu, ajudou a carregar as urnas mortuárias até a morada final. Sempre encontrava uma forma de pegar na alça do “caixão” e ninguém se atrevia a deixá-lo fora da empreitada, mesmo sendo esta função, tradicionalmente, uma honra inerente aos filhos e os mais chegados dos falecidos. Fazia isso de coração, sem esperar elogios ou benefícios futuros. Tratava-se de um homem simples no âmbito material, mas de espírito filantrópico dentro das suas possibilidades. Sucedeu-se assim, quase que diariamente, a mesma rotina na vida de Zé Inocêncio.
Mais um dia raiou na cidade. Os pássaros cantavam nas árvores, as pessoas transitavam pelas ruas e as crianças divertiam-se nas praças. Tudo parecia normal, exceto pelo fato de que o rádio de Inocêncio nesse dia não emitiu o som que cotidianamente se escutava. Seu aparelho não ligou porque naquela manhã ele deixou ser rádiouvinte, para se tornar notícia na voz do comunicador que tanto apreciava. Zé Inocêncio havia falecido. Sem familiares para bancar as despesas fúnebres, foi velado num “caixão” vagabundo doado pela prefeitura. Em seu velório, não apareceu nenhum dos parentes daqueles falecidos que ele ajudou a carregar nos últimos 30 anos, nada de políticos lamentando tão terrível infausto; nem religiosos encomendando sua alma. Somente um velho amigo estava lá.
Essa ingratidão aconteceu logo com Zé, que comparecia a todas as cerimônias fúnebres e disputava a cotoveladas a alça da urna mortuária. No momento do séquito, não tinha gente o suficiente para carregar seu caixão até a morada final. Foi levado até a sepultura pela única pessoa que compareceu ao funeral, com ajuda dos coveiros de plantão, cortejado apenas por seu fiel cão vira-latas, sendo sepultado na ala dos indigentes do cemitério municipal.
Autor: Maciel Brognoli
As palavras de baixo calão 23 de maio de 2011
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As pessoas procuram sempre se comunicar da forma mais educada e correta possível, para não parecerem antipáticas e arrogantes com aqueles que diariamente ou eventualmente se relacionam. Isso, de forma geral, faz parte da cultura de um povo educado buscando transmitir para seus interlocutores a finura e sensatez de um português requintado e formal. Embora seja uma boa idéia para interagir sem correr o risco de ofender aqueles que lhes ouvem; muitas vezes a sutileza exagera dos termos (principalmente em momentos de descontração) não trazem os mesmos efeitos que as frases feias e conhecidas como de baixo calão. Mesmo que a delicadeza das palavras esteja intrinsecamente ligada ao refinamento de uma boa criação, o exagero em demonstrar o vasto vocábulo carrega consigo certa dose de chatice, e dizer que os palavrões não fazem parte do nosso cotidiano; é querer “tapar o sol com a peneira”. Afinal, ninguém depois de disputar uma ofegante partida de futebol, abre uma cerveja gelada e degusta lascas de churrasco dizendo: “A carne está saborosa, macia, e apetitosa.” O cara simplesmente fala: “A carne está boa pra “Caralho”! Assim não necessita dizer mais nada. Pra “Caralho” é muita coisa, é o auge quantitativo e dispensa consulta ao dicionário.
Ao comprar um carro novo, mostramos para os amigos e esperamos deles uma reação positiva ao avaliarem o bem material que adquirimos. Se disserem apenas que o automóvel é bonito e tem boa estabilidade, ficamos até ofendidos com a falta de empolgação e o discurso previsível politicamente correto. Agora, se eles falam: “Bah, que nave “Fudida”, tem uns aros ‘Porraço” e o porta-malas é “Puta” espaçoso!” Logo um sorriso de satisfação brota em nossa face, fruto da certeza de que adquirimos a melhor de todas as máquinas. “A merda vai garra”, é outra frase usual e causa grande precaução em quem escuta. “Se tu voltar a incomodar a “merda vai garra” e o negócio vai catingar pro teu lado!”Esse termo é constantemente usado por aqueles que estão de “saco cheio” de alguma situação ou de pessoas. Quase sempre funciona e geralmente quem escuta “larga do pé” completamente. Um “vai se Fuder” dito com uma boa entonação de voz fazendo cara de brabo, também trás bons resultados.
Não sou a favor de palavrões que tem como plano de fundo a intimidação, muito menos faço apologia às palavras de baixo calão ditas a esmo. Soltar “Puta que Pariu” após martelar o dedo, ou depois de acertar uma topada no dedão do pé é quase automático e sem malicia alguma. Dizer ou até mesmo pensar: “Tô Fudido”, ao observar os valores do contra cheque no final do mês, é mais clássico do que a nona sinfonia de Beethoven. Mas, é preciso tomar muito cuidado com os colóquios de baixo nível, o uso desse artifício da “língua Brasileira” precisa ser moderado. Perto de crianças, nunca; diante do Juiz de Direito, jamais.
Mesmo que você condene tudo que foi aqui relatado e se enquadre na categoria dos educados sem precedentes, e jamais abre a boca para falar besteiras; atire a primeira pedra aquele que num estádio de futebol (em coro), ou sozinho em casa na frente da televisão assistindo uma partida de futebol, nunca gritou: Juiz “Filha da Puta”! Após ele marcar um pênalti duvidoso contra o time do coração.
Autor: Maciel Brognoli
Zé Diabo- o retrato de um gênio invisível 3 de maio de 2011
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É muito engraçado como aquela velha frase: “santo de casa não faz milagre” é a mais pura realidade. Saímos do estado para visitar as praias do nordeste e mal conhecemos os 500 quilômetros de litoral, emoldurados por lagoas, rios, montanhas e exuberante Mata Atlântica, que existe em Santa Catarina. Grande parte dos habitantes da região Sul nunca foi à serra do rio do rastro, em Lauro Müller, uma beleza natural inigualável em todo o mundo. As cachoeiras da cidade de São Martinho, a 50 minutos do centro de Tubarão, são pérolas que ainda não saíram de dentro das ostras. Isso sempre foi assim, a alface da horta do vizinho sempre dá folha mais bonita e vistosa do que a nossa. O problema é quando o vizinho fica a centenas e milhares de quilômetros de distância, e a beleza não pode ser apreciada de perto, tornando-se mais um sonho utópico, enquanto a realidade palpável definha aos poucos sem ser valorizada da forma que merece.
Falar de belezas naturais locais esquecidas é triste, mais penoso ainda é quando os abandonados são pessoas; lembradas e afamadas por suas obras somente depois da morte. A genialidade de Van Gogh, por exemplo, foi reconhecida somente após seu sono eterno. Vendeu uma única tela enquanto vivo, A Vinha Encarnada, por 400 francos. Em 1990, 100 anos após seu falecimento, outra tela sua, Retrato do Dr. Gachet, alcançou o valor de US$ 82,5 milhões, um recorde até então. Van Gogh não foi um caso isolado, muitos outros antigos mestres das artes passaram por situações semelhantes. Isso é compreensível a medida que a maioria desses ‘esquecidos’ viveram no século 18. Na atualidade, não é admissível que em vida um grande artista seja ignorado por seus conterrâneos, e visto como como gênio somente depois que seus olhos se fecham para a eternidade.
Alguém conhece um senhor chamado José Fernandes, conhecido como Zé Diabo? Tenho certeza que quase ninguém sabe de quem se trata. Com mais de 80 anos e hoje em dia aposentado, Zé Diabo é um grande escultor da cidade de Orleans, no sul do nosso estado. Esculpiu em pedra viva num paredão à margem do Rio Tubarão figuras bíblicas – com uma perfeição em detalhes surpreendente. Apesar do epíteto pouco santo para uma pessoa que dedicou sua vida à arte sacra, Zé Diabo recebeu essa alcunha depois de realizar um trabalho no qual São Miguel Arcanjo luta contra Lúcifer, dentro de uma igreja no interior de Orleans. A imagem do diabo ficou tão “real” que os paroquianos acharam que ele poderia ter um pacto com o demônio. Mesmo com o paradoxo nominal, Zé Diabo é um homem de Deus, e com certeza um dos escultores mais importantes desse país. É grande o acervo artístico dessa extraordinária pessoa, não sendo possível relatar num pequeno artigo a grandeza de suas obras. O objetivo maior é valorizar a imagem esquecida de um artista singular, fazendo com que o povo e o poder público reconheçam e divulguem seus feitos em vida, não somente depois da morte, como costumeira e hipocritamente ocorre.
Diante de tudo isso, Albert Einstein tinha razão ao relatar que “A fama é para os homens como os cabelos – cresce depois da morte, quando já lhe é de pouca serventia”.
Autor: Maciel Brognoli
O jumento esperto 29 de março de 2011
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Na década de 60, dizem os mais antigos, chegou um circo numa pequena cidade do interior do Nordeste Brasileiro. O espetáculo era bem simples, assim como toda a estrutura circense. Era início de fevereiro, o Prefeito da cidadezinha havia assumido recentemente sua primeira vez no comando da Administração Pública local, e os cargos de confiança ainda estavam sendo distribuídos entre a coligação vencedora do pleito.
No circo, as maiores atrações ficavam por conta dos palhaços, malabaristas, o homem que cuspia fogo, e a maior de todas as atrações: dois jumentos que faziam a alegria da garotada.
Certo dia, os jumentos se cansaram daquela vida de trabalhos forçados, onde a única recompensa se materializava em alfafa e capim, que os tratadores davam nos finais das apresentações. Combinaram escapar do circo para tentar a vida noutro lugar, onde não seriam mais forçados a trabalhar sem nenhum direito.
- Para onde vamos fugir? Perguntou um asno para o outro.
- Ainda não sei, mas temos que seguir cada um para um lado. Precisamos tomar caminhos opostos, assim os humanos terão dificuldades para nos recapturar. Disse o jumento esperto, para o burro desorientado.
No breu da noite, aguardaram o momento oportuno e na calada da madrugada galoparam fugindo em alta velocidade pelas ruas da cidade em busca da liberdade. Depois que estavam bem longe dos domínios do circo, cada um traçou um caminho. Um dos jumentos seguiu para as matas fechadas que predominava na região, o outro ficou na cidade.
Seis meses depois, o jumento que fugiu para as matas foi encontrado pelos donos do circo. O bicho estava em situação precária, passou muita fome no tempo em que ficou foragido, visto que não encontrava comida suficiente para sobreviver sem ajuda dos humanos. Voltou para o circo.
Dois anos e meio depois, o outro asno que ainda estava desaparecido retornou ao circo espontaneamente, reencontrando o amigo na jaula. Diferente do primeiro jumento que voltou debilitado, o segundo chegou forte e robusto. Isso intrigou seu companheiro.
- Eu fiquei seis meses na floresta e tive que pedir arrego, cheguei aqui magro e fraco, não consegui encontrar comida suficiente para me alimentar sozinho. A vida lá fora foi pior pra mim do que aqui dentro. Ao contrário de você, aparentemente se deu bem e provavelmente estava num bom lugar. Porque regressou para o circo?
- Quando eu fugi para a cidade não sabia onde me esconder. Vi a porta de uma repartição pública aberta e fui logo entrando. Entrei numa sala onde tinha uma poltrona confortável vaga, em cima da mesa estava uma plaquinha escrita: Cargo de Confiança. Fui logo sentando e fiquei ali todos esses últimos anos ocupando a vaga.
- Nenhuma pessoa percebeu que era um jumento sentado na poltrona exercendo a função? Perguntou o burro que se frustrou na fuga.
- Não. Por muito tempo ninguém reparou que eu era um animal, o pessoal lá da repartição é meio desligado. – Porque você voltou se estava se dando bem entre os humanos e não foi reconhecido como jumento?
- Aí é que está o problema, quase ninguém reparou que eu sou um burro, só uma pessoa que percebeu. Fui exonerado na reforma Administrativa. O Prefeito me reconheceu.
Autor: Maciel Brognoli
A utilidade do estresse e dos ditos populares 4 de março de 2011
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Alberto estava muito estressado, precisando respirar novos ares. Não agüentava mais a mais a rotina naquela selva de pedra em que passava a maior parte de seus dias. Resolveu então convidar sua esposa para fazerem algo diferente.
-Querida, vamos acampar? Perguntou ele, tentando esconder o estresse que faziam suas mãos tremerem feito um cachaceiro com crise de abstinência.
- Que bom, estava louca pra fazer algo diferente! Quando nós vamos?
- Agora mesmo!
- Nossa! Como você é decidido-Disse ela-, enquanto esfregava as mãos nas bochechas rosadas de impaciência do marido.
Colocaram todos os apetrechos dentro e em cima do veículo e seguiram para um camping situado a beira mar. Chegando ao local, Alberto escolheu o melhor ponto para armar a barraca que serviria de abrigo. O problema é que o guri não nascera com aptidão nem para abrir uma lata de sardinha, imagina para montar alguma coisa? Duas horas se passaram e o cara estava ainda tentando entender os desenhos do manual de instrução. De repente sua impaciência urbana veio a tona novamente. Sentiu um calor brotar do fundo de seu intestino delgado, subindo lentamente pelo diafragma encanando no esôfago e logo despontando num grito avassalador garganta a fora. Precisava descontar sua raiva em alguma coisa. Saiu correndo e desferiu um golpe certeiro com o membro inferior no pináculo de sustentação de abrigo campestre- de um sujeito que também estava acampado por ali.
– O rapaz, tu já chega chutando o pau da barraca? Perguntou assustado um sujeito que estava deitado dentro da construção provisória, sem entender os motivos do pontapé.
Alberto acalmou os nervos e percebeu que tinha pisado na bola. ‘Agora que a esposa do suíno faz um movimento helicoidal com seu apêndice caudal’, pensou o estressado. (agora que a porca torce o rabo!) Mas antes que Alberto pusesse balbuciar qualquer palavra, sua esposa foi logo se desculpando por ele, e tudo se apaziguou.
– Você está muito nervoso, precisa se acalmar! Falou o sujeito para Alberto.
Depois de alguns conselhos, ainda convidou o desequilibrado para pescar no final da tarde, visto que se trata de uma ótima terapia. – Logo você me ajuda a catar algumas minhocas, o resto deixa comigo.
Depois de decifrar aquele código secreto que era o manual de instrução de montagem da barraca, Alberto finalmente conseguiu colocar aquela joça de pé. ‘Eis que chegou a hora de horizontalizar esqueleto e permitir a conjunção de cílios superiores e inferiores’, pensou, fazendo menção em descansar um pouquinho. Mas antes que pudesse sair da vertical e entrar na horizontal, o sujeito da barraca cutucou suas costelas com o cabo de uma enxada.
– Vamos catar minhoca, rapaz! Precisamos pegar uns bagres graúdos pra fazer um ensopado e tocar uma viola sob a luz do luar no romper da madrugada.
– Ô coisa boa! Disse Alberto. Sem saber se aquelas palavras que saiam de sua boca eram sarcásticas ou de alegria.
Bateu com a Lâmina da inchada na terra virgem e logo descobriu que cada enxadada era uma minhoca.
– Segura esses! Disse o sujeito, passando alguns oligoquetos para Alberto colocar no pote.
Pegou os anelídeos com uma das mãos e pensou: ‘Esse bicho é mesmo um absurdo, não tem pé nem cabeça!’
-Chega! Temos isca suficiente para sustentar um tubarão. Vamos para a lagoa pegar uns bichanos.
Na lagoa, Alberto mal sabia espetar a minhoca no anzol.
– Monstro, fica rebolando pra escapar da empalação! Esse verme está querendo me vencer pelo cansaço. Pensa que vou desistir? ‘Pode retirar o filhote de eqüino da precipitação pluviométrica’(tirar o cavalinho da chuva).
– Ora, Alberto! Chega de ‘colóquios flácidos para acalentar bovinos’ (conversa mole pra boi dormir). Vamos á pesca!
Algum tempo depois os dois estavam com os molinetes devidamente municiados e mergulhados dentro da lagoa, aguardando a fisgada que os tiraria daquele silêncio profundo, típico dos mais hábeis pescadores.
– Mordeu! Disse Alberto, emocionado.
– Puxa, devagar, mata ele pelo cansaço! Falou o sujeito.
Ao final de uma luta incessante com o bagre, Alberto conseguiu trazê-lo para terra firme. Tirou o anzol da boca do peixe e ergueu o bicho para o alto como se fosse um troféu. Mas o imprevisto provém a todos, principalmente aos incautos, o bagre deu uma sacudida violenta e enfiou a espora em sua mão, caindo dentro da lagoa e nadando para a liberdade novamente.
– Mas que inferno! Esbravejou o imprudente.
– De nada adianta ‘exprimir pranto pela perda do segregado das glândulas mamárias da fêmea dos mamíferos’ (Chorar pelo leite derramado). Continue a pescaria. Disse o sujeito, sem se importar com o peixe que foi perdido.
“Alguns meses depois.”
- Era uma pessoa muito boa, pena que se estressava facilmente. Teve mais uma daquelas crises, mas dessa vez foi fulminante. Disse a esposa de Alberto para as muitas pessoas que estavam acompanhando o velório do silencioso e calminho defunto- enquanto era acalentada pelo sujeito do camping.
Se Alberto estivesse ainda vivo, pensaria: a fêmea de linhagem dos bovinos caiu no terreno úmido, frio e pantanoso. (A vaca foi pro brejo).
Autor: Maciel Brognoli
Esclarecimento e homenagem ao guarda municipal Marcelo Goulart Silva, morto em serviço por marginais 21 de fevereiro de 2011
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Diferente do que foi publicado por alguns jornais e falado por algumas pessoas, a morte do Guarda Municipal Marcelo Silva, não foi decorrente de nenhuma ação impensada para impedir que os marginais agissem, muito menos pode ser chamado de fatalidade, como alguns disseram. ‘Execução sumária’, é a frase certa para o que aconteceu com nosso querido colega.
Jornal Hoje – Papai Noel recebe do Brasil a maior carta do mundo 22 de dezembro de 2010
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Mais uma vez, Tubarão foi destaque nacional, ontem. Nacional é pouco. Tubarão foi destaque internacional. A mega carta escrita por alunos de escolas públicas do município no ano passado é a maior do mundo já enviada a Papai Noel (o de verdade, que mora lá na gelada Lapônia, na Finlândia).
No fim de 2009, o guarda municipal Maciel Brognoli lançou o projeto Lapônia. Ele e os companheiros da GMT visitaram 20 escolas e incentivaram os alunos a escreverem pedidos para o Bom Velhinho voltados à proteção ambiental.
O resultado foi a produção de uma carta com quase 600 metros e mais de dez quilos. Um pacote bem bonito foi feito para enviar o material à residência oficial de Noel. Ontem, a carta foi citada em uma matéria especial do Jornal Hoje, da Rede Globo, como a maior carta já recebida pelo Bom Velhinho.
O repórter Marcos Losekann conversou com a duende responsável por ler todas as cartas do Brasil e ela confessou: levou uma semana para ler os pedidos dos nossos pimpolhos tubaronenses.
A duende afirmou ainda que o que mais chamou a sua atenção foi que as crianças não pediram brinquedos, nada de presente, e sim que os governos mundiais cuidem do meio ambiente.
Agora, a carta, que era uma espécie de pedido de socorro para salvar o Rio Tubarão, poderá servir de incentivo para que os gestores façam, efetivamente, algo pela natureza. “Fiquei surpreso com a matéria. Foi um verdadeiro presente de Natal”, comemora Brognoli.
Fonte: Notisul
Não dê ouvidos aos pessimistas 21 de novembro de 2010
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O Prefeito de uma determinada cidade tinha um sonho muito audacioso para colocar em prática em seu município. Sonhava construir um bondinho que levasse as pessoas ao morro mais alto da cidade, transformando o passeio num atrativo turístico e privilegiando os seus munícipes com tal grandiosa obra, visto que o local é muito bonito e oferece visão magnífica do lugar. O chefe do executivo se mostrava um sujeito de visão, e costumava saber, antes de executar qualquer empreendimento, quais as possibilidades técnicas de concretizar as suas idéias. Em cada novo planejamento reunia-se com uma comissão de engenheiros, e, quando eles apresentavam dados de inviabilidade de alguma obra, acatava a decisão e desistia do projeto. Isso para ele sempre foi à forma mais correta de trabalhar.
Nos anos sessenta, quando o Prefeito nasceu, os médicos descobriram que tinha um sério problema de audição, tendo sua qualidade de vida comprometida. Atualmente, somente consegue ouvir claramente usando um aparelho auditivo. Com o desenvolvimento da tecnologia digital e um design bastante avançado, ele usa um objeto minusculo colocado no fundo do canal auditivo, e quase ninguém sabe do seu problema. Graças ao aparelho, ouve de forma clara e cristalina, como se não tivesse nenhuma dificiencia.
Em busca do sonho em construir um bondinho na sua cidade, viajou para a Capital do Estado, onde se reuniu com os engenheiros que outrora haviam subido o morro para avaliar o local. Na sala de reuniões, tudo transcorria normalmente durante as apresentações pessoais, porém, quando os engenheiros começaram a falar a respeito da obra, o aparelho auditivo começou a apresentar sinais de que iria pifar.
Entre idas e vindas, o som desapareceu completamente de seus ouvidos. Escutava apenas um forte zumbido que persistia em atazanar seu cérebro. Incomodado com aquela situação, mas acanhado com o imprevisto, fingia ouvir tudo que os técnicos falavam e, balançando a cabeça de forma positiva, tentava demonstrar entendimento sobre o que estava sendo verbalizado. Mergulhado que estava em seus pensamentos e vendo apenas um balbuciar de bocas que não emitiam vozes, tudo parecia certo que seu sonho seria realizado. No entanto, o que eles tentavam explicar para o surdo de ocasião, é que seu sonho era inviável, visto a dificuldade de se trabalhar no pico daquela montanha (argumento fraco e pessimista). Feita todas as considerações a respeito da obra, deram um parecer negativo, aliás, mais que negativo – impossível. Ao perceber que a reunião havia terminado, o Prefeito apenas estendeu o polegar de forma positiva. Sem ouvir o que foi colocado e movido pela força de seu desejo, concluiu que tudo tinha dado certo. Em seguida, saiu mortificado pela porta a fora sem ao menos levar o parecer escrito que os engenheiros elaboraram para lhe entregar. Queria apenas voltar para sua cidade e consertar o aparelho que lhe devolveria o sentido perdido.
Alguns dias depois, estava novamente com os cinco sentidos afinados. Sentado em seu gabinete e matutando com suas idéias, sentia cheiro de boas novas ao tatear o desenho que ele mesmo havia feito do bondinho. Olhava como águia para o papel e sentia fome em realizar aquela obra. “E sem saber que era impossível, ele foi La e fez.” (Jean Cocteau).
E foi assim que o prefeito daquela cidade realizou a sua maior obra. Deixando de ouvir, mesmo que sem querer, a opinião dos pessimistas.
Autor: Maciel Brognoli
Muitos sonhos, uma realidade 27 de outubro de 2010
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Essa noite eu tive um sonho muito maluco. Estava observando o rio tubarão na cercania da ponte do Morrotes. Circulavam caiaques, lanchas, jet ski, pessoas velejando e praticando os mais diversos esportes náuticos. Tudo parecia tão real que até mesmo sonhando cheguei a duvidar que aquilo pudesse ser verdade. Mas a loucura continuava. Sem que esperasse, passou uma escuna vinda da cidade de Laguna, cheia de turistas. Aportou nas imediações do centro da cidade e as pessoas desceram para comprar no comércio, deixando dinheiro e fortalecendo a economia do município. Ao descerem da embarcação, eram recepcionados por um ônibus especial, desses que levam os turistas para conhecer as belezas naturais e as opções de lazer de um lugar; assim como fazem as grandes cidades que têm um rio navegável que deságua no mar.
Por mais que me esforçasse para acordar não conseguia. Assustei-me quando um ônibus que circulava pela rua Marechal Deodoro saiu da estrada e tomou a direção do rio Tubarão. Gritei com toda minha força para as pessoas que estavam por perto. “O ônibus caindo no rio, vai afundar! Socorro!” Os que me escutaram pensaram estar diante de um maluco. Só entendi depois que o danado começou a flutuar. O coletivo na verdade era um daqueles ônibus anfíbios que rodam na terra e podem navegar. Ele cortava a cidade de um lado ao outro e supria as necessidades de transporte dos munícipes em menor tempo, sendo também um atrativo turístico. Chegavam pessoas de todos os cantos do país somente para andar naquelas “belezuras.”
E o devaneio continuou. Naquelas alturas eu não poderia duvidar de mais nada que meus olhos presenciassem. Ouvi um barulho forte que parecia vir do céu. Olhei para o alto e constatei que um avião estava sobrevoando o centro da cidade. A aeronave parecia estar descontrolada, e o piloto, ao que parecia, desviava para sofrer queda dentro do rio Tubarão. Provavelmente uma manobra para evitar que a tragédia fosse maior e atingisse pessoas inocentes. Pensei dessa vez: eu vou gritar sem medo de errar. E gritei! “Avião caindo no rio!” A rapaziada me olhou atravessado novamente, virando as costas para me ignorar de vez. Eu não entendia como podiam ficar alheias a uma catástrofe aérea que estava por acontecer. Resignado, voltei os olhos para o provável ponto de colisão da aeronave, não havia muita coisa que pudesse ser feita. Porém, mais uma vez, fiquei surpreso. Na verdade aquele era um hidroavião, e o leito do rio Tubarão tinha se tornado uma pista para as aeronaves. Empresários de fora chegavam para visitar a cidade e investiam nesse lugar tão promissor e cheio de atrações turísticas.
Depois de toda essa evolução que eu não sabia explicar de onde havia surgido, fechei os olhos, curvei as pernas e coloquei as duas mãos na cabeça, tentando entender o que estava acontecendo com a cidade. De repente, senti alguém tocando meu ombro para chamar a atenção. Um sujeito magrinho, olhos fundos, sorriso amarelado. Estava com uma latinha de cerveja vazia na mão, tinha acabado de fumar uma pedra de crack debaixo da ponte do Morrotes. Disse ele:
- O maluco, acorda meu! Eu que fumo o bagulho e tu que fica viajando!
Nesse momento meu relógio despertou e eu acordei assustado para a realidade, estava na hora de trabalhar.
Naquele mesmo dia, agora acordado, ao olhar o rio e os locais que eu havia sonhado, tristemente percebi que a única situação real dos meus sonhos é a aglomeração de “craqueiros” embaixo da ponte do Morrotes.
Autor: Maciel Brognoli
![Bondinho-do-Pao-de-Acucar[1]](http://macielbrognoli.files.wordpress.com/2010/11/bondinho-do-pao-de-acucar12.jpg?w=460&h=345)
